29 de setembro de 2014

Do Correio do Povo de 27/09/14

Evento no Centro de Porto Alegre promove luta contra o abate animal

Foto: Paulo Nunes / CP

Manifestação acontece simultaneamente em todo o planeta

Por Jézica Bruno

Para lutar contra o abate de animais e fazer a população mundial repensar sobre o consumo de carne o evento 269life, que acontece todo ano, de forma simultânea em todo o planeta, foi realizado nesta sexta-feira, na Esquina Democrática, em Porto Alegre. A iniciativa do movimento na Capital é de ativistas independentes e da Vanguarda Abolicionista. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil são abatidos 80 milhões de animais por ano para o consumo.

O movimento começou em Israel quando três ativistas visitaram uma fazenda e viram um bezerro com um brinco amarelo na orelha. Ele estampava o número 269 e servia para identificar o animal para o abate. Desde então, o número tornou-se símbolo de luta pelo fim da escravidão animal. Muitos veganos, pessoas que optaram por não consumir qualquer tipo de produto de origem animal, carregam o símbolo tatuado no corpo.

De acordo com o diretor-geral do Movimento Abolicionista Marcio de Almeida Bueno, as ações são movidas por uma questão ética. “Foi feita historicamente uma construção dentro da raça humana de comer a carne de alguns animais e de diferenciá-los de outros que nós lutamos para desconstruir”, explicou.

Durante o evento, que está em sua quinta edição em nível mundial, foi feita panfletagem e protesto com banners que defendiam a liberdade animal. Participaram vegetarianos, veganos e simpatizantes da causa animal.

24 de setembro de 2014

Ouça minha música 'I don't know'

Esta é a música 'I don't know' - apesar do título, é cantada em Português - da minha banda Videogames Sem Controle, disponível no EP 'Um ar de sono torto'. Canto e toco guitarra. A composição é uma parceria minha com o baiano Daniel Barbosa, com quem produzo há décadas. O estilo é rock gaúcho, mezzo psicodélico e mezzo torto. Todas as faixas já gravadas podem ser ouvidas em http://www.reverbnation.com/videogamessemcontrole.

20 de setembro de 2014

Cavalgada do Mar: a farra-do-boi gaúcha

Na passagem do 20 de setembro, reproduzo matéria de minha autoria que fiz em 2010 por solicitação do jornal Folha do Meio Ambiente, editado em Brasília/DF com distribuição nacional. Uma versão digital está em http://www.folhadomeio.com.br/publix/fma/folha/2010/04/cavalga209.html.




Cavalgada do Mar: a farra-do-boi gaúcha

por Marcio de Almeida Bueno

Cavalgada do Mar assemelha-se a tradições culturais moralmente condenáveis, como farra do boi, rodeios e touradas

No início do ano, o litoral do Rio Grande do Sul sediou a 26ª Cavalgada do Mar, reunindo três mil cavalarianos para 240 quilômetros pelas praias. Já nos primeiros dias, a imprensa noticiava a morte de dois cavalos, mas extra-oficialmente corria a informação de que seis a oito cavalos tinham morrido de stress e exaustão. Uma dúzia havia passado mal. Com isso, dezenas de entidades de proteção e grupos pró-libertação animal lançaram a 'Carta Aberta Aos Gaúchos de Bom Senso', que rodou a Internet e chamou a atenção para o caso. O documento pedia o fim da Cavalgada do Mar e denunciava a exploração do cavalo, apesar de ser 'o melhor amigo do gaúcho'.

E ssas cavalgadas fazem parte da indústria cultural pilchada, que se reproduz pela mídia e calendário de eventos celebratórios. É mais um do barroquismo cívico, parte de uma identidade que se alimenta da exibição", comenta o historiador e professor da Universidade de Passo Fundo, Tau Golin. Em seu livro 'Identidades', Golin classifica a tradição gaúcha como uma cultura da violência. "Nesta poética, existem inúmeras músicas que o índice de hombridade é medido pela capacidade de violência contra outros homens e os animais, no 'poder' de sujeitar cavalos", aponta.

Para a bióloga Ellen Augusta Valer de Freitas, "as fezes equinas durante a cavalgada, estimadas em 500 toneladas, causam desequilíbrio ambiental e poluição, pois não são recolhidas prontamente". Ellen explica que o pisoteio dos cascos ferrados de três mil cavalos funciona como milhares de enxadas na areia, esmagando a macro e microfauna, coisa que o pé dos banhistas não provoca. Se nos chocamos com a morte em massa de animais maiores, por que desconsiderar mariscos, siris e tatuíras?

Crítica na mídia

Alguns dos formadores de opinião gaúchos começaram levantar críticas, ao que antes parecia ser unanimidade. O colunista Paulo Sant'Ana, de Zero Hora, em 'A Cavalgada da Gordura', falou dos cavalos gordos e despreparados para uma jornada extenuante, montados por quem também estava acima do peso. Juremir Machado da Silva, no centenário Correio do Povo, publicou 'Tempo de matar cavalos', texto lido ao megafone durante o protesto em 26 de janeiro, na frente da sede do Governo Estadual e Assembléia Legislativa. O ato juntou ativistas e protetores, com ampla cobertura dos meios de comunicação. Para a jornalista Helena Dutra, do grupo Vanguarda Abolicionista, "a Cavalgada do Mar assemelha-se a tradições culturais moralmente condenáveis, como farra-do-boi, rodeios e touradas, com primitivismo, crueldade e indiferença para com o sofrimento. O fato de ainda se perpetuarem no século 21 é um atestado da nossa falência ética".

Comer, beber e dar risada

Vilmar Romera: "se morrerem 15 cavalos, não tenho nada com isso. Esse é um problema do dono do cavalo. É como mulher. Se tu não tratares bem, vais levar guampa".

Em entrevista dada a Zero Hora, o folclorista Paixão Côrtes, nome maior do tradicionalismo gaúcho, dizia não ver razão na Cavalgada do Mar. "Não há pesquisa nem serve para questionar os problemas do RS. É comer, beber e dar risada", decretou. Naqueles dias, o presidente da Fundação Cavalgada do Mar, Vilmar Romera, defendia o evento no mesmo veículo, com declarações desastradas - "se morrerem 15 cavalos, não tenho nada com isso. Esse é um problema do dono do cavalo. É como mulher. Se tu não tratares bem, vais levar guampa". O lema deste ano era 'Mulheres a Cavalo pelo Rio Grande'.

Mais de cem mil pessoas já assinaram o 'Manifesto contra o Tradicionalismo' - gauchismos. blogspot.com, e nas enquetes da mídia, a maioria do público pediu o fim da Cavalgada do Mar. A advogada da ONG Chicote Nunca Mais, Márcia Suarez, presente em dois debates sobre o tema, quer que sejam identificadas os donos dos animais que foram a óbito durante os dias de cavalgada. "Vou utilizar o que dispõe hoje a lei para que em 2011 os animais estejam em melhor condição. Um veterinário para cada 50 eqüinos - e não apenas um para três mil, como é atualmente", diz. O Ministério Público gaúcho abriu inquérito para apurar as denúncias.

A psicóloga Eliane Carmanim Lima, mestre em Sociologia da Violência e Criminalidade, esclarece que "o século XXI está conhecendo a cultura que substituirá esta que cavalga cavalos à exaustão em nome da tradição. Esta que vemos nascer é a que se reúne em praça pública para pedir justiça". Para Eliane, uma mudança está em curso. "Se hoje conseguimos enxergar o crime de maus tratos a animais, arbitrado desde 1934, é porque nosso olhar mudou. Atinge a alimentação, a educação, a economia e mesmo hábitos que muitos pensavam estarem resguardados pela 'tradição'. A mudança segue a galope, cada vez mais célere e indomável. Não poderá ser freada ou domada como têm sido os animais", compara.

Para Luiz Martins da Silva, professor de Ética da Universidade de Brasília, é necessário levar às novas gerações uma compreensão ainda mais elevada acerca do mundo, uma ética da compaixão. "Se o ser humano se considera superior, não deve esperar que os supostos 'brutos' se elevem até si, mas que no enlevo da compreensão possa oferecer uma simetria para com eles, senão as pessoas matarão tudo o que for vivo e que não considerarem que é simétrico a si. Inclusive humanos", pondera.

18 de setembro de 2014

Segue a sub-miséria para humanos e animais

Há uma lei em Porto Alegre que progressivamente restringe a circulação de carroças, assunto já exaustivamente debatido, inclusive os mecanismos de inclusão social dessa mão-de-obra. Mas há lugares que ainda fazem uso da tolerância, e não enxergam as consequências dessa vista-grossa. Geralmente há um acerto do carroceiro com o zelador / porteiro / vigia, o que lhe dá acesso interno a condomínios, para pegar o lixo seco que deveria ser entregue somente para a coleta seletiva. É uma migalha de esmola, que obviamente alivia mais a quem dá do que a quem recebe. Mais que uma ajuda, é a manutenção de um sistema injusto que causa degradação ambiental, escraviza homens e cavalos, e promove o trabalho infantil. Tudo isso bem longe das vistas de quem 'dá'. Estre flagrante foi na Bela Vista, no último dia 16.

O fim do último cinema de bairro

A derradeira sala de cinema fora do eixo dos shopping centers e espaços culturais acaba de fechar. O último cine de bairro ficava na rua Marquês do Pombal, próximo à Maryland. Era uma espécie de café / galeria, desconhecido até mesmo para muitos aficcionados pela sétima arte. Na calçada em que ficava o cartaz do filme exibido - geralmente obras francesas, películas cult, não-comerciais - agora está uma caliça. Nela, restos da desocupação do local, com placas, objetos, garrafas vazias, caxias, fiação e até alguns troféus de premiações. Melancólico.



A arte que não pára

Na rótula da Nilo Peçanha com a Carazinho, um artista de rua defende o sustento na rapidez do sinal vermelho. Nos segundos do farol fechado, ele precisa se poscionar, fazer sua micro-apresentação e rapidamente verificar se alguém vai lhe estender alguns trocados. Não há tempo a perder, nem para o descuido nem para o rebuscamento. Uma arte ao vivo, contra o relógio.

Uma Cristóvão só para pedestres

As obras que ainda estão sendo feitas na esquina da rua Dom Pedro II com Cristóvão Colombo tornaram esta via um passeio público. Se no lado de cá - para quem vai do Centro para o bairro - o trecho reservado virou estacionamento, o lado de lá passou a ser uma área de pedestres. No primeiro, há uma curiosa pasagem 'oficial' em meio a ruínas. No segundo, o que chama a atenção é o comércio fechado, com placas de 'alug-ase'.

14 de setembro de 2014

Brechó de garagem da Cleide é excelente programa para um sábado

A protetora de animais Cleide Frasson é reconhecida pelo trabalho voluntário e independente que faz com gatos, em resgates, castração, tratamento e encaminhamento para adoção adequada. Além do tempo consumido, a ativdiade gera gastos, e para amortizar parte do que investe constantemente, Cleide realiza um brechó de garagem. O mais recente foi neste sábado, 13 de setembro, das 10h até o final da tarde. Em um aconchegante pátio residencial nos altos da Cristóvão, havia móveis, livros, CDs, roupas, objetos, brinquedos, equipamentos. O clima é de alto astral, e muitas vezes é a prórpria mãe da protetora que recebe os visitantes, com simpatia. O evento acontece esporadicamente, e doações podem ser entregues no próprio dia do brechó. O endereço é avenida Cristóvão Colombo, 3706, e o email para contato é cleidefraza@gmail.com. No Facebook, o endereço é https://www.facebook.com/cleide.frasson, onde é possível acompanhar a data do próximo brechó de garagem.





Sarau Garagem dos Livros: Ellen Augusta Valer de Freitas recita 'O frio a faz respirar'

Ellen Augusta Valer de Freitas recita seu poema 'O frio a faz respirar', acompanhada por Marcio de Almeida Bueno ao violão, durante o Sarau da Garagem dos Livros de 12/09/14.

Flashes do Sarau da Garagem dos Livros de 12/09/14

 






9 de setembro de 2014

Intervenção urbana na Independência com Santo Antônio


Natureza quadriculada ou 'se tem animal e lucro, tem arame farpado'

A primeira conversa pega-trouxa que autoridades em geral e representantes do setor da pecuária repetem é ‘desenvolvimento sustentável’. Senão, vejamos. O Brasil ocupa a segunda posição em termos de rebanho de gado bovino, perdendo apenas para a Índia. Dados do Censo 2010 apontam 200 milhões de vacas e bois no país, sendo Corumbá, no MS, a cidade com maior população bovina - dois milhões. Já cai por terra o mito do Sítio da Vovó Donalda, onde há apenas uma vaca - com nome próprio, flor na orelha, fita na cabeça - que parece viver como um animal de estimação.

Ainda tem ingênuos que pensam a pecuária como uma atividade de manter o gado por toda a vida em bucólicos gramados, dando toda a assistência - ‘a vida que pedi a Deus’ - até que um dia ZAP!, tão rápido quanto um piscar de olhos, é feito um acerto de contas para dar de comer às legiões de esfomeados. Miseráveis esfomeados x vacas gordas usufruindo de spa em meio à natureza - eis como a coisa parece ser posta, na argumentação de alguns teimosos.

Há sempre um arame farpado separando a manada do resto da natureza. E especialmente de sua própria natureza, de correr um pouco, andar para qualquer lugar que não seja a rota do brete. Cada vez mais, é mais gado em menos espaço, em mais áreas - inclusive locais sagrados como Amazônia e Pantanal. Mas isso não conta na hora de reunir os amigos para um domingo de alegria. De outra forma, não flui.

Então temos que engolir um novo termo moldado de acordo com os novos tempos - desenvolvimento sustentável - e que parece aplacar o remorso que o cidadão comum começa a ter, ao ver as sacudidas da natureza. Lentamente, Tico e Teco vão se dando as mãos. Alguém fala que não come carne - e, estranhamente, não caiu fulminado por um doença terrível minutos depois, nem por um raio enviado dos céus. Pelo contrário, até está com exames de sangue melhorzinhos. A próstata agradece, inclusive.

Mas o termo serve pra acalmar qualquer leve desespero, tentativa de reflexão que venha a questionar o modus operandi deste nosso sistema de ruralistas fazendo crer que o desenvolvimento é para todos, sem conta bancaria própria no meio. Como se escravizar os animais para fins de lucro, com arames farpados para manter controle, seja algo que se deva agradecer. E depois os açougues distribuem a carne à legião de esfomeados, claro.

E a natureza, essa coisa amorfa que cabe no discurso de qualquer aventureiro, está se tornando quadriculada, em nome de um orgulho pela pujança de terceiros. Que, de alguma forma, incluem no pacote do progresso qualquer um que pegue uns bons cortes de carne no açougue, para o próximo domingo. De graça, claro.

Originalmente publicado em http://www.anda.jor.br/27/12/2011/natureza-quadriculada-ou-se-tem-animal-e-lucro-tem-arame-farpado.

Pizza vegana do Govinda



Arte urbana na Protásio com Taquara


Vídeo da candidata vegana Eliane Carmanim Lima

5 de setembro de 2014

Flagrante

Neste estacionamento do Zaffari, a vaga é exclusiva para pessoas com necessidades especiais, não apenas prioritária. Regularmente, outros motoristas fazem uso do local, sem o menor constrangimento. Ainda falta muito para que a cidadania permita a inclusão de todos. Imagino a pessoa com necessidades especiais, com dificuldades saindo de casa, dirigindo seu veículo adaptado, e encontrando um estacionamento cheio, e sua vaga - prevista em lei - ocupada por um carro de madame, como já testemunhei. Ele vai passar por um grande aperto, e provavelmente pensar duas vezes antes de supor que as 'facilidades' estejam realmente disponíveis.

Veganos comem muito bem no Formosa

Na Jerônimo, quase esquina com a Duque, fica o restraurente chinês Formosa. O buffet livre é ovolactovegetariano, mas nós veganos não temos do que nos queixar. Uma deliciosa opção é o 'ghiosa', espécie de capeletti suavemente recheado com legumes, leve e passado em um molho não-picante. Junto á salada de abacate, é a pedida para contrastar com pratos de sabor forte, como a proteína texturizada de soja agridoce. Depois do almoço, é "sede de anteontem", como canta Chico Buarque.

Na livraria Érico Verissimo

Foto: Ellen Augusta Valer de Freitas / desobedienciavegana.blogspot.com

Ainda há quem cuide dos rejeitados



Minha mãe, Vivânia Caser Bueno, é protetora de animais e presidente da Apave - Associação Protetora dos Animais São Francisco de Assis, na cidade de Veranópolis, a 'Terra da Longevidade'. Já recebeu muitas homenagens pelo trabalho voluntário 24h, inclusive uma medalha da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Além dos socorros a emergências, cuida diariamente de cerca de 200 cachorros em um abrigo municipal. Sempre que a visito, faço trabalhos lá, como carregar cascalho, consertar cercas, fotografar, assessoria de Imprensa e dar atenção a tantos animais que, um dia, tiveram família e lar. A ONG tem uma poupança para quem quiser ajudar com qualquer valor em dinheiro, que pode ser depositado inclusive em lotéricas. Os dados são

0528
013
64685-0
Caixa Econômica Federal.

3 de setembro de 2014

Brechó pelos animais é neste domingo

A tradicional ONG de proteção Bichos & Amigos realiza neste domingo, 7 de setembro, seu conhecido brechó em prol dos mais de 150 gatos e cachorros que abriga. Moda, brinquedos, livros, LPs, CDs, bijouteria e outros novos/seminovos serão vendidos a preços módicos. O evento vai das 10h às 17h na rua Aliança, 289, que corta a Assis Brasil entre o Bourbon Wallig e o Shopping Lindória, Zona Norte de Porto Alegre. Doações de ração são muito bem-vindas. Outras informações podem ser obtidas pelo facebook.com/OngBichosEAmigos, 51-8461-5077 ou bichoseamigos@bichoseamigos.org.br. Os animais agradecem.

Cara de qual carne?

por Ellen Augusta Valer de Freitas

Recentemente uma pessoa famosa foi vista com um casaco de pele. A pele era falsa, mas como a celebridade é alvo de fofoca, só depois foi confirmado o fato. Até então, os mesmos que espalharam o boato, não se furtaram de usar seus sapatos e artefatos de couro - que é pele sem pelos - nem deixaram de tomar leite, nem de praticar toda a extensão do mal que causam aos animais. Mas julgam-se defensores, gritam em nome de uma justiça que talvez não sejam capazes de fazer.

O que a celebridade incentivou, na verdade, foi a indústria têxtil que não utiliza peles de animais.

O que essas pessoas ‘críticas’ incentivam, é a indústria do couro e o cinismo, de que se pode comer e utilizar uns, e sacralizar outros. É muito mais nocivo usar algo de origem animal, mesmo escondido, do que usar um produto que poupe os animais. Lembrando que os curtumes de couro podem poluir até muito mais, pois é mais comum. Nas lojas, vendedoras mal informadas dizem: couro é caro. Mentira. Existem couros animais de todos os tipos, vagabundos. A carne e o couro brasileiro nem são aceitos em alguns países pela sua baixa qualidade, exploração do trabalho e poluição.

O purismo de evitar as comidas veganas que ‘lembram’ carne beira a ingenuidade, já que o sabor é independente do formato e da origem. O sabor defumado da carne, soja ou glútem, bem como embutidos, vem da fumaça, basicamente. É um método antigo e era aplicado até mesmo ao chá na China.

É preciso deixar de endeusar a carne e esse é um erro que até mesmo veganos cometem quando se recusam a comer coisas veganas, só porque se parecem com carne. Não se desapegaram, é preciso desencanar. Desprezam a criatividade dos chefs, os avanços da indústria e mercado, que criam sabores atribuídos erroneamente à carne. Ficar implicando porque algo parece ovo ou lembra o gosto de queijo é preciosismo, pois animais estão morrendo de verdade e as pessoas os comem muito mais por vício, lobby e imposição social. É um resquício da visão especista achar que livrando-se da forma, liberta-se do conteúdo.

Os alimentos práticos foram criados para o dia a dia. A salsicha, por exemplo, era feita de tripas de animais. Foi substituída por celulose vegetal. Os veganos substituem seu conteúdo por produtos vegetais. A salsicha tem praticidade semelhante à banana, uma fruta que nem precisa ser lavada e pode ser consumida em qualquer parte. O leite vegetal, o (‘milk’)-shake vegetal, o pão, tudo é prático e não queremos deixar de comê-los. Queremos deixar de explorar os animais.

Toda a alimentação vegana corresponde à alimentação que ‘lá fora’ é de origem animal. A pizza vegana, é uma versão da pizza que, comumente é feita com ingredientes de origem animal. Um cogumelo (Reino Fungi) que, botanicamente falando, não é nem do Reino Vegetal nem do Reino Animal, tem sabores que lembram carnes na maior parte das vezes. Ele é saboroso e nutritivo. Até mesmo um inocente azeite aromático que eu preparo em casa com alho e manjericão, tem gosto de linguiça! Pois a base do tempero da linguiça é praticamente a mesma.

Algumas coisas, ao contrário, eram originalmente vegetais, e foram adaptadas à culinária tradicional por misturas culturais e as pessoas nem sabem, mas se recusam a comer a versão vegana. Há sabores únicos na culinária vegana, porém, pode-se criar pratos comuns, como os que lembram as coisas da infância, trazendo para perto da filosofia vegana, muitas pessoas.

O argumento de que a carne é nojenta não coloca em dúvida o ato de comer ou não animais. Questões particulares não se aplicam ao todo. A carne e derivados de origem animal, ovos, leite, queijo, couros-peles, são símbolos de exploração, porém atribuir nojo como o único argumento para o não consumo de carne não sensibiliza quem come carne e não sente nojo algum, pois este não foi o motivo que fez a maioria das pessoas a parar de comer carne. Nem mesmo o argumento de que ela faz mal para a saúde é convincente, já que há pessoas saudáveis a consumir animais.

O incômodo para elas é de outra natureza. Há pesquisas aos montes comprovando a longevidade e saúde dos veganos, do nascimento à velhice. Mas o ser vegano é um estilo de vida baseado na ética, pois somos contrários à exploração de animais ‘felizes’ e às ditas galinhas saudáveis e vacas verdes, já que é o mesmo que bater com permissão ou com anestesia.

Não há um selo que consagra à pecuária e à carne e derivados de origem animal a detenção dos direitos sobre os sabores, formatos e até mesmo os nomes para alimentos e para o nosso paladar. Então é preciso acordar para o fato de que não existe patente requerida para o sabor.

Publicado originalmente em http://www.anda.jor.br/02/09/2014/cara-carne.

2 de setembro de 2014

A saudade do que não vivemos

De LPs antigos e trenzinhos a penteadeiras e cristaleiras, o Caminho dos Antiquários, no Centro Histórico de Porto Alegre, literalmente põe na rua o acervo de diversas lojas de antiguidades. Aos sábados de manhã, a quadra onde se concentram muitos desses estabelecimentos - rua Marechal Floriano, entre Fernando Machado e Demétrio Ribeiro - é fechada para automóveis. Os lojistas instalam algumas de suas preciosiddes no meio da via, sob o sol matutino. Muito brilho e cuidado, em peças que promovem uma irresistível saudade de tempos que - não - vivemos.

Ou 'acho bonito na casa dos outros'.







Final de tarde na Mostardeiro